Max Weber estava certo sobre a reforma protestante? Veja três artigos que falam sobre o tema

Seguem abaixo três artigos com pegada quantitativa sobre a reforma protestante e seus efeitos:

1) Becker, S.O. and L. Woessmann (2009), “Was Weber Wrong? A Human Capital Theory of Protestant Economic History”, Quarterly Journal of Economics

Os autores usam os dados da Prússia (ao nível dos condados) de imposto de renda e de uma série de censos entre o final do século XIX e início do XX para mostrar que, além de as regiões protestantes serem mais ricas, elas também eram mais educadas (taxa de analfabetismo menor).

Depois de controlar por uma série de fatores geográficos, sociais e demográficos, ele conseguem identificar uma maior taxa de alfabetização exogenamente associada à religião protestante. Aí os autores calculam os anos de escolaridade associados às taxas de analfabetismo, aplicam retornos usuais para cada ano de escolaridade e aparentemente conseguem explicar toda a diferença no nível de renda entre as regiões prussianas a partir das diferenças no estoque de capital humano.

Conclusão apresentada: a tese de Weber (regiões protestantes serem mais afluentes) aparentemente estava correta em seu tempo, mas não pelo canal proposto por ele. O canal proposto pelos pesquisadores foi que as exortações de Lutero para que os fiéis lessem e interpretassem a Bíblia por conta própria devem ter tornado as regiões protestantes mais bem educadas ao longo dos séculos desde a reforma, e isso, por sua vez, parece explicar as disparidades de renda na Alemanha do início do século passado que Weber imaginou estarem associadas à “ética protestante”.

2) Cantoni, D. (2015), “The Economic Effects of the Protestant Reformation: Testing the Weber Hypothesis in the German Lands”, Journal of the European Economic Association

O autor compara a evolução demográfica de 272 cidades do extinto Sacro Império Romano desde a reforma protestante até pouco antes do início do período industrial. Considerando que a fertilidade de cada grupo religioso era parecida, o tamanho das cidades seria um indicador importante do seu grau de desenvolvimento no período observado. Há ainda um teste da hipótese de endogeneidade da adoção da reforma: cidades que escolheram se tornar protestantes já tinham maior ou menor propensão a crescer?

Conclusão apresentada: a adoção da reforma teve certo grau de endogeneidade, mais especificamente, cidades periféricas em relação aos grandes centros estavam mais propensas a abandonar o catolicismo. Quando levado esse ponto em consideração, o desempenho das cidades protestantes é um pouquinho melhor, mas nada muito significativo. O autor conclui que, no período pré-industrial, olhando apenas as cidades, o desempenho das regiões católicas e protestantes é equivalente. As diferenças no capital humano encontradas no trabalho anterior (que é extensivamente citado nesse) seriam uma espécie de capital adormecido, que só viria a se mostrar relevante no período industrial. Se existe alguma “ética protestante” que estimula o trabalho duro e a poupança, ela não pareceu ser significativa para explicar o desenvolvimento na Europa alemã desde a reforma até meados do século XIX.

3) Cantoni, D., J. Dittmar, and N. Yuchtman (2018), “Religious Competition and Reallocation: The Political Economy of Secularization in the Protestant Reformation”, NBER

Usando os dados da região de língua alemã do Sacro Império Romano, os autores comparam a evolução do investimento fixo em novas construções (clericais e seculares) e da pesquisa nas universidades (fins teológicos e seculares) para as regiões católicas e protestantes.

A tese proposta é que a reforma quebrou o monopólio do catolicismo na Europa, introduzindo competição religiosa. Isso teria transferido mais poder para as autoridades seculares, levando a uma realocação de recursos (físicos e humanos) para atividades seculares tanto nas regiões que aderiram quanto nas que não aderiram à reforma.

Conclusão apresentada: a realocação de recursos de atividades religiosas para seculares em todo o império é estatisticamente comprovada, sendo o efeito mais pronunciado na regiões protestantes. Monastérios são fechados, novas construções religiosas despencam, novas construções seculares aumentam, a parcela dos pesquisadores envolvidos em atividade teológica nas universidades cai, a parcela envolvida em pesquisa secular aumenta; sendo que tudo isso acontece mais intensamente nas regiões que se tornaram protestantes. A reforma, e a competição religiosa que dela surgiu, teriam aberto caminho para o ocidente secular e economicamente próspero que conhecemos hoje, tornando viáveis a revolução científica e o iluminismo.

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