Complexidade Econômica: além do espantalho da política industrial

Há uma certa confusão no debate brasileiro sobre Complexidade Econômica. A teoria criada por Cesar Hidalgo e Ricardo Hausmann causa polêmica em torno da política industrial no Brasil devido ao seu uso em alguns papers sobre política industrial e em debates na internet. Antes de qualquer coisa, precisamos definir a Complexidade de acordo com a literatura mais recente.

O que é Complexidade Econômica?

De acordo com o próprio Atlas da Complexidade Econômica, é a medição de know-how (conhecimento) numa sociedade por via da diversidade e ubiquidade de seus produtos. Maior complexidade, maior conhecimento para essa sociedade. Essa complexidade é medida através do Economic Complexity Index (ECI), que é calculado com dados de exportações de vários países (os detalhes dos cálculos podem ser vistos aqui). Aqui já podemos ver uma diferença de definição em relação à política industrial: um Iphone é mais complexo que a atividade de mineração não porque ele é um bem industrial ou algo do gênero, mas o conhecimento tácito para sua produção é maior. Cesar Hidalgo, no Atlas da Complexidade, tem uma analogia interessante sobre a questão:

O jogo Scrabble é uma analogia útil. No Scrabble, os jogadores usam peças contendo letras únicas para formar palavras. Por exemplo, um jogador pode usar as letras A, C e R para construir as palavras CAR ou ARC. Nesta analogia, as palavras são como produtos e letras são como capacidades ou módulos de conhecimento embutido. Assumimos que cada jogador tem bastante letras. Isso significa que se um país tem um determinado módulo de conhecimento, ele pode usar esse conhecimento em muitos ambientes diferentes. Nosso desafio é medir o número de letras diferentes que os jogadores estão olhando para duas coisas: primeiro, o número de palavras que cada jogador pode escrever; segundo, o número de jogadores que podem escrever uma palavra específica. Os jogadores que têm mais letras devem ser capazes de fazer mais palavras. Podemos esperar a diversidade de palavras (produtos) que os jogadores (países) podem fazer sejam fortemente relacionados ao número de letras (capacidades) que eles possuem. Portanto, diversidade é a primeira medida de quanto conhecimento um país tem. Vejamos agora as palavras. O número de jogadores que podem fazer uma palavra indica quantas letras a palavra tem. Palavras mais longas tendem a ser menos comuns, pois só podem ser feitas por jogadores que tenham todas as letras. Da mesma forma, produtos mais complexos serão menos comuns porque apenas os países que possuem todos os requisitos de conhecimento serão capazes de fazê-los. Produtos que requerem pouco conhecimento devem ser mais comuns e vice-versa.

Então a Complexidade, ao contrário da abordagem tradicional, tenta unir em um índice multidimensional (o ECI) o conhecimento produtivo, que nada mais é que uma medição de conhecimento.

Para onde a literatura de Complexidade Econômica avança?

Por ser um índice multidimensional, ele na academia tem sido usado como proxy para vários estudos e artigos, como artigos envolvendo instituições e desigualdade [1], desigualdade de renda e capital humano [2], capital humano apenas [3], mercado de trabalho [4], desigualdade de gênero [5] e políticas verdes – que é a área onde esse índice tem mais se destacado [6][7]. Há achados interessantes, como os que relacionam a complexidade de produtos com índice de GINI relacionados a esses mesmos produtos e sua interação com as instituições, o que demonstra que Complexidade pode afetar desigualdade [1].

Porque a associação de Complexidade com política industrial?

Há alguns trabalhos linkando essa questão de política industrial e CEPAL [8], mas essa é apenas mais uma linha dentro de um campo bem maior de estudo.

E os problemas metodológicos do ECI?

Como qualquer índice, o ECI também sofre de limitações de cálculo. Ele é calculado com base em exportações justamente por questão de obtenção de dados comparáveis entre países. Porém, ele pode ser usado em dados e métricas diferentes, como patentes [9]. E essas limitações relacionadas à base de dados e cálculos estão sendo corrigidas ao longo do tempo, como a inclusão de serviços no cálculo [10].

Conclusão

Esse breve artigo serve para demonstrar que a Complexidade é mais que o espantalho das redes sociais fazem. Como qualquer campo de estudo na ciência, sofre de limitações. Entretanto, é uma ferramenta útil, e vem sendo usada em diversos artigos científicos para avançar o conhecimento econômico.

Várias nuances teóricas e empíricas ficaram de fora desse breve artigo introdutório. Quem quiser saber mais, recomendo “Economic Complexity Theory and Applications”, publicado na Nature e escrito pelo pesquisador Cesar Hidalgo.

Referências

[1] Hartmann, D., Guevara, M. R., Jara-Figueroa, C., Aristarán, M., & Hidalgo, C. A. (2017). Linking economic complexity, institutions, and income inequality. World development, 93, 75-93.

[2] Lee, K. K., & Vu, T. V. (2019). Economic complexity, human capital and income inequality: a cross-country analysis. The Japanese Economic Review, 1-24.

[3] Zhu, S., & Li, R. (2017). Economic complexity, human capital and economic growth: empirical research based on cross-country panel data. Applied Economics, 49(38), 3815-3828.

[4] Adam, A., Garas, A., Katsaiti, M. S., & Lapatinas, A. (2021). Economic complexity and jobs: an empirical analysis. Economics of Innovation and New Technology, 1-28.

[5] Nguyen, C. P. (2021). Gender equality and economic complexity. Economic Systems, 45(4), 100921.

[6] Ferraz, D., Falguera, F. P., Mariano, E. B., & Hartmann, D. (2021). Linking economic complexity, diversification, and industrial policy with sustainable development: A structured literature review. Sustainability, 13(3), 1265.

[7] Romero, J. P., & Gramkow, C. (2021). Economic complexity and greenhouse gas emissions. World Development, 139, 105317.

[8] Gala, P., Camargo, J., & Freitas, E. (2018). The Economic Commission for Latin America and the Caribbean (ECLAC) was right: scale-free complex networks and core-periphery patterns in world trade. Cambridge Journal of Economics, 42(3), 633-651.

[9] Balland, P.-A., & Rigby, D. (2016). The Geography of Complex Knowledge. Economic Geography, 93(1), 1–23.

[10] Mishra, S., Tewari, I., & Toosi, S. (2020). Economic complexity and the globalization of services. Structural Change and Economic Dynamics, 53, 267-280.

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