Os países europeus são ricos por causa do colonialismo? (Parte 2)

Em um texto anterior nosso, foi abordada a tese corriqueiramente difundida de que Europa seria rica hoje por causa do seu passado colonial. Depois de ter dado bastante o que falar, iremos explicar aqui com mais detalhes em alguns tópicos o porquê desta hipótese ser pouco crível, estando à margem do consenso no campo da história econômica.

1) O progresso na Europa Ocidental começou antes do colonialismo

O historiador econômico Angus Maddison foi referência na quantificação de dados macroeconômicos da história mundial. Uma de suas séries mais famosas é a que compara o padrão de vida de várias partes do mundo (que viriam a se tornar os países modernos) desde o ano 1, tomando como referência uma medida de poder de compra fixa, o Dólar Geary-Khamis. Uma boa pista para saber se o desenvolvimento causou a expansão colonial ou vice-versa é tentar descobrir quem veio primeiro.

Nós aglutinamos os grupos em níveis de renda ponderando as populações, e fica evidente que entre o ano 1000 e o ano 1500, todos os grupos pertencentes à Europa Ocidental descolam do resto mundo. Nathan Rosenberg e L. Birdzell, em seu livro “How the West grew rich?”, abordam o processo de mudança institucional ocorrido na Europa neste período. A região, que inicialmente estava atrás do Mundo Islâmico e da China em termos de ciência e tecnologia, passa a desenvolver, desde o meio da Idade Média, instituições que encorajam o comércio, a inovação e a melhora organizacional.

2) Os países que colonizaram e os que não colonizaram tiveram desempenhos parecidos

Do grupo 1 ao 4 estão elencado as regiões por grau de colonialismo:

1) Grandes potências coloniais;

2) Colonização tardia e pouco significativa;

3) Colonização insignificante ou não tiveram colônias;

4) Ex-colônias que absorveram a institucionalidade britânica.

Todos os grupos convergem para o mesmo nível de renda, especialmente a partir de 1800. Caso a colonização tivesse sido um processo determinante em si mesmo para o enriquecimento dos países europeus, seria esperado ver diferenças significativas. Mais ainda: Se a colonização beneficiou os colonizadores às custas dos colonizados de forma permanente, não seria esperado uma convergência ainda no século XIX.

3) Extrair renda de outros países não gera melhorias sustentáveis no padrão de vida de um povo

Segundo o modelo Solow de acúmulo de capital, a evolução do estoque de capital físico de um país entre o ano 1 e 2 pode ser escrita como K₂ = K₁(1 – δ) + sY₁, onde K é o estoque de capital, δ a taxa de depreciação, s a taxa de investimento como fração do PIB e Y o PIB. Manipulando esta equação, obtemos:

(K₂ – K₁)/K₁ = s(Y₁/K₁) – δ (1)

Onde o primeiro termo representa a evolução relativa do estoque de capital, ∆K/K.

A lei dos rendimentos marginais decrescentes nos diz que qualquer ∆K/K irá retornar um ∆Y/Y menor, já que não estaríamos dobrando todos os insumos (trabalho, terra), aumentando a relação K/Y. Logo, na medida em que Y/K encolhe na equação 1, é necessário um investimento cada vez maior para gerar o mesmo acúmulo de capital. Este jogo leva ao que os economistas chamam de estado estacionário: O crescimento baseado em acúmulo de capital tende a estagnar no longo prazo, quando todo investimento passa apenas a repor a depreciação do capital existente. A única coisa que pode gerar crescimento contínuo é uma melhora na tecnologia, isto é, a constante descoberta de novas formas, mais inventivas e eficientes, de combinar a mesma quantidade de capital, trabalho e recursos naturais para produzir mais e/ou melhor.

Esta constatação algébrica nos mostra que ciclos de extração de renda de uma nação por outra, como as corridas do ouro nos impérios português e espanhol, podem fazer muito pouco pelo padrão de vida de um povo. Se a tecnologia não se altera, todo capital adicional acumulado durante o período de bonança será depreciado assim que a bonança acabar, fazendo com o que o país retorne, novamente, para o nível estacionário.

4) A revolução industrial foi um boom de inovação, e não mero acúmulo de capital

Como dissemos, melhorias verdadeiras e sustentáveis do padrão de vida estão sempre relacionadas ao surgimento de novas ideias. Veja a Revolução Industrial: Uma série de invenções inglesas em série. Teriam os britânicos ficado subitamente geniais do dia pra noite? A resposta evidentemente é não. Nós deveríamos nos perguntar: O que torna um país mais propenso a inovar? A existência de um vasto império colonial? Bem, não parece ser uma suposição satisfatória. Nada parecido ocorreu na Espanha ou em Portugal durante o período de expansão colonial, na Rússia durante a conquista da Sibéria, pra não falar de nações orientais que também subjugaram vários outros povos, como a China Ming e o Império Otomano. Os avanços recentes na teoria do crescimento nos levam às instituições, entendidas como regras formais e informais que condicionam a nossa interação em sociedade. Instituições que alinham os incentivos, igualando o benefício privado ao benefício social, garantem arranjos mais eficientes e dinâmicos no longo prazo. O historiador econômico e prêmio nobel Douglas North detalha muito bem o processo de mudança institucional que levou o ocidente a desenvolver um ambiente mais propício ao crescimento em “The Rise of the Western World”. Instituições que minimizam os custos de transação, como a garantias de propriedade e contratos, permitem o crescimento do comércio e da divisão do trabalho, elevando a produtividade e a renda.

A própria Inglaterra, antes da Revolução Industrial, foi palco de uma profunda mudança institucional. Os poderes do rei foram limitados, o judiciário se tornou independente, surgiu um parlamento forte, as finanças do Estado passaram a ter caráter impessoal. Instituições parecidas foram assimiladas pelos países do grupo 4, e não espanta que tenham convergido para o mesmo nível de renda britânico ainda no início do século XIX, a despeito de serem colônias, ou ex-colônias recentes para o caso americano.

Conclusão

O colonialismo e o imperialismo foram um dos capítulos mais detestáveis da história do mundo ocidental, mas não há motivo para acreditar que eles sejam responsáveis pela riqueza atual dos países ricos. A chave para a riqueza e a pobreza das nações está nas instituições, e não no passado colonial. Esta é, de longe, a explicação mais plausível, e não por outro motivo se tornou consensual na economia. Pensadores da história econômica que são relevantes para a estado da arte atual, como North, Acemoglu e cia, não nos deixam dúvidas sobre a centralidade das instituições para a riqueza das nações.

Confira aqui a parte 1.

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