Anos 70: A década mais prolífica da economia (parte 1)

Qual foi a década mais prolífica para a ciência econômica? Alguns dizem que foi a década de 50. Nesta década, os trabalhos da Cowles Comission e da RAND Corporation estavam indo a todo vapor, e iriam fundar as bases para programas de pesquisa que prosperaram na economia, como a Teoria dos Jogos e demais teorias fundamentadas no modelo de escolha racional.

Com certeza, a década de 50 foi uma das mais produtivas. Mas, ao meu ver, a década que merece o troféu de mais prolífica para a economia, no sentido de ter deixado o maior número de trabalhos de impacto duradouro nesta ciência, foi a década de 70. Nela tivemos:

1. A revolução das expectativas racionais e a destruição da fortaleza keynesiana

  • Essa revolução começou com o lançamento, em 72, de Expectations and the Neutrality of Money, de Robert Lucas, que construiu um modelo de business cycle em que os agentes tomam decisões com expectativas racionais mas com informação imperfeita, dentro de um paradigma de equilíbrio geral.
  • Em seu Some International Evidence on Output-Inflation Tradeoffs, de 73, Lucas tenta fornecer algumas evidências em favor de sua teoria. Apesar dessa sua teoria ter sido posteriormente rejeitada em grande parte, a técnica de modelagem lançada por Lucas se tornou muito influente na economia.
  • Em 74, em Are Government Bonds Net Wealth?, Robert Barro, amparado nas expectativas racionais, lança a ideia da equivalência ricardiana, mostrando que o governo é incapaz de aumentar a renda agregada ao aumentar seus gastos.
  • Em 75 e 76, com Rational expectations and the theory of economic policy e Rational Expectations, the Optimal Monetary Instrument, and the Optimal Money Supply Rule, Thomas Sargent e Neil Wallace traçam as consequências de uma política monetária discricionária tendo como base as expectativas racionais.
  • Em 76, Lucas lança a sua famosa “crítica de Lucas”, com o trabalho Econometric Policy Evaluation: A Critique. A crítica era que os economistas keynesianos não levavam em consideração a reação dos agentes às políticas econômicas em seus modelos. Aqui Lucas completou de vez a destruição da fortaleza keynesiana.
  • Em 78, Robert Hall lança o seu modelo de consumo em que mudanças no consumo ocorrem de forma totalmente imprevisível. Para tanto, ele juntou a ideia de expectativas racionais com a hipótese da renda permanente de Friedman. O nome do artigo é Stochastic Implications of the Life Cycle-Permanent Income Hypothesis.
  • Também em 78, Lucas (sempre ele), lança Asset Prices in an Exchange Economy, que estabelece um modelo de precificação de ativos em equilíbrio geral com expectativas racionais.

2. A reconstrução da fortaleza keynesiana

Mal a fortaleza havia cedido, bravos pedreiros (digo, economistas) já estavam a reconstruindo, mas agora com tijolos mais fortificados e usando os mesmos instrumentos que seus rivais utilizaram para destruí-la. Falo aqui especificamente de Stanley Fischer, que em seu trabalho de 77 (Long Term Contracts, Rational Expectations and the Optimal Money Supply Rule) utilizou o conceito de expectativas racionais para formar um modelo de business cycle que é gerado a partir de salários rígidos. Esse modelo daria início à escola novo-keynesiana, que seria avançada na próxima década por outros scholars, principalmente David Romer e Gregory Mankiw.

3. Os modelos com assimetria de informação

  • Em 1970, começando a década, George Akerlof lança o clássico The Market for Lemons, que mostra como a seleção adversa se dá no mercado de carros usados. Esse artigo fora rejeitado por três revistas antes de ser finalmente aceito. Um dos motivos da rejeição dada a Akerlof foi que “se isso está certo, então toda a economia precisa ser mudada”. Pois bem, e mudou.
  • Em 71, James Mirrlees, em An Exploration in the Theory of Optimum Income Taxation, mostra como os indivíduos podem ser induzidos a revelar o quão são produtivos, resolvendo assim o problema da taxação ótima.
  • Em 73, com The Economic Theory of Agency: The Principal’s Problem, Stephen Ross desenvolve rigorosamente o problema da agência vista a partir do ponto de vista do principal.
  • Também em 73, em Job Market Signaling, Michael Spence lança uma tese ousada: que programas de qualificação (faculdades, cursos, etc.) servem apenas para que aqueles que o completam sinalizem o quanto são produtivos e esforçados – e não que tais programas, de fato, qualifiquem.
  • Ainda em 73, Allan Gibbard, através do seu Manipulation of Voting Schemes: A General Result, propõe a primeira versão do “princípio da revelação”, segundo o qual a solução para problemas de incentivo sob informações incompletas pertencem à classe dos chamados mecanismos de alocação, que induzem todos os indivíduos a revelar suas informações particulares de forma precisa. Esse princípio é a base da mechanism design theory, e foi estendido posteriormente para contemplar situações de equilíbrio Bayesiano-Nash (principalmente por Dasgupta, Hammond e Maskin em The implementation of social choice rules e Myerson em Incentive Compatibility and the Bargaining Problem).
  • Em 76, Michael Rothschild e Joseph Stiglitz lançam Equilibrium in Competitive Insurance Markets, onde mostram quais são as estratégias usadas pelas seguradoras para superarem o problema da seleção adversa e da moral hazard.
  • Em 79, Bengt Holmström, em Moral Hazard and Observability, lança o informativeness principle: um contrato ótimo deve vincular pagamento a todos os resultados que possam potencialmente fornecer informações sobre ações que foram tomadas.

4. Mercado financeiro

  • Em 1970, Eugene Fama, em seu Efficient Capital Markets, lança a famosa Hipótese do Mercado Eficiente, que diz que não há como você ganhar do mercado de forma consistente, pois os agentes sempre utilizarão todas as informações disponíveis na hora de investir. Essa hipótese é polêmica e alvo de debates intensos até hoje.
  • Em 73, Fischer Black e Myron Scholes criam a famosa fórmula de Black-Scholes para precificação de derivativos. O artigo em que eles fazem isso se chama The Pricing of Options and Corporate Liabilities.
  • Também em 73, Robert Merton generalizou o modelo de precificação de opções de Black-Scholes em Theory of Rational Option Pricing.
  • Ainda em 73, em An Intertemporal Capital Asset Pricing Model, Robert Merton (de novo) criou um modelo intertemporal de precificação de ativos financeiros (modelos desse tipo são mais conhecidos por sua sigla em inglês, CAPM), estendendo assim o trabalho iniciado anos antes por William Sharpe.

5. Econometria

  • No ano de 1974, em Spurious Regressions in Econometrics, Clive Granger e Paul Newbold mostram o grande problema existente nas regressões de séries temporais não-estacionárias: elas, com frequência, apresentam correlações espúrias.
  • Em 76, Daniel McFadden, em The Revealed Preferences of a Government Bureaucracy: Empirical Evidence, criou um método para o tratamento econométrico de amostras com escolhas discretas.
  • Em 78, Jerry Hausman apresenta o seu famoso teste de especificação de Hausman, proposto no trabalho Specification Tests in Econometrics.
  • Em 79 veio uma das grandes revoluções da microeconometria: James Heckman, em Sample Selection Bias as a Specification Error, criou um método para corrigir o viés da auto-seleção em amostras.

6. Outras áreas

  • Em 1970, John Harris & Michael Todaro, em Migration, Unemployment and Development: A Two-Sector Analysis, resolvem o quebra-cabeça do porquê, em países em desenvolvimento, há uma massiva migração de trabalhadores do campo para a cidade, sendo que, em tais países, o campo apresenta a possibilidade de ganhos de excendentes, já que ali o produto marginal do trabalho é positivo, ao passo que a cidade apresenta um risco considerável de desemprego. Eles mostraram que se o risco do desemprego for ponderado junto aos maiores salários existentes na cidade, então a migração faz sentido. Esse trabalho hoje é um clássico da economia do desenvolvimento.
  • Em 71, George Stigler lança o que é hoje um marco na teoria da captura, teoria que diz que as empresas supostamente reguladas tem o poder de usar as agências reguladoras para barrar competidores do mercado, se favorecendo com isso. Seu trabalho seminal se chama The Theory of Economic Regulation.
  • Também em 71, James Mirrlees e Peter Diamond mostram como o sistema tributário deve ser modelado de modo a minimizar distorções e desincentivos e eliminar ineficiências de produção. Especificamente, eles mostraram que países pequenos não deveriam impor tarifas ao comércio exterior e que a tributação deveria estar no consumo, não na produção. Esse trabalho está dividido em dois artigos. O primeiro se chama Optimal Taxation and Public Production I: Production Efficiency, e o segundo se chama Optimal Taxation and Public Production II: Tax Rules.
  • Em 1972, Hugo Sonnenschein, em Market Excess Demand Functions, deu a sua contribuição para o que é hoje conhecido como o Teorema Sonnenschein-Mantel-Debreu. O teorema afirma que as funções de demanda do mercado não podem ser derividadas das funções de demanda individuais. Assim, os pressupostos da racionalidade microeconômica não teriam implicações macroeconômicas equivalentes. Esse teorema comprometeu o projeto de microfundamentações da teoria macroeconômica.
  • Ainda em 72, em Production, Information Costs, and Economic Organization, Armen Alchian & Harold Demsetz conjecturam uma resposta para o motivo da existência das firmas. Segundo os autores, o grande diferencial das firmas é a capacidade de medir insumos e suas respectivas produtividades e de mobilizar recursos para produção envolvendo a coordenação de muitos insumos.
  • Em 74, Gary Becker, dando continuidade ao seu projeto de estender a análise econômica para áreas até então abordadas apenas por sociólogos, cria uma análise econômica do crime, evidenciando a racionalidade instrumental que existe quando alguém comete um crime. Seu trabalho se chama Crime and Punishment: An Economic Approach.
  • Também em 74, Anne Krueger, com o seu clássico The Political Economy of the Rent-Seeking Society, identifica a extensão das atividades de rent-seeking e fornece um framework para analisar seus impactos no bem-estar social.
  • Em 75, em The Political Business Cycle, William Nordhaus cria um modelo de ciclos econômicos que leva em conta o ciclo eleitoral, mostrando como os políticos usam a relação de trade-off de curto prazo entre desemprego e inflação para se beneficiar politicamente.
  • Em 76, Rudiger Dornbusch apresenta pela primeira vez a ideia do overshooting no mercado de câmbio, mostrando a importância das expectativas nesse mercado. O trabalho se chama Expectations and Exchange Rate Dynamics.
  • Em 77, no seminal Monopolistic Competition and Optimum Product Diversity, Avinash Dixit & Joseph Stiglitz criam um modelo de análise de equilíbrio geral levando em conta o gosto pela variedade dos consumidores, em um arcabouço de retornos crescentes de escala e competição monopolística.
  • Também em 77, Rudiger Dornbusch, Stanley Fischer & Paul Samuelson apresentam o que talvez possa ser considerado o último tijolo no castelo da teoria das vantagens comparativas. Em Comparative Advantage, Trade, and Payments in a Ricardian Model with a Continuum of Goods eles montam um modelo de comércio internacional com um contínuo de bens.
  • Ainda em 77, Finn Kydland & Edward Prescott, em Rules rather than Discretion, mostram como os bancos centrais podem facilmente tornar a política monetária inconsistente, por isso a necessidade de que eles atuem através de regras claras ao invés de discricionariamente. Esse trabalho iria influenciar a atuação dos bancos centrais no mundo todo.
  • Em 79, Daniel Kahneman & Amos Tversky apresentam o hoje famosíssimo Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk, onde eles mostram que a teoria da utilidade esperada não se verifica na prática. Esse é um dos papers que deu início ao hoje prolífico campo da economia comportamental.
  • Por fim, em 79, no artigo intitulado Increasing Returns, Monopolistic Competition, and International Trade, Paul Krugman, se apoiando no trabalho anterior de Dixit e Stiglitz, lança o modelo do comércio internacional intra-indústria, realçando a importância dos retornos crescentes de escala.

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Esse é um resumo de alguns dos principais trabalhos em economia na década de 70. Como vocês podem observar, foi uma década extremamente prolífica. É claro que deixei de mencionar muitos trabalhos importantes, portanto essa lista de trabalhos importantes em economia na década de 70 não é exaustiva.

Veja aqui a parte 2, que foi publicada no site do Terraço Econômico. Ela trata dos principais livros de economia lançados na década de 70.

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