Entenda o básico sobre crescimento econômico

O que determina o nível de renda de uma nação? Essa questão intriga os economistas desde os tempos de Adam Smith, que inaugurou o campo tentando justamente responder essa pergunta. Aqui, iremos brevemente explicar os conceitos da teoria moderna do crescimento econômico.

Pois bem, geralmente a forma padrão de se modelar a função de produção de um país é através de uma função Cobb-Douglas. Iremos aqui utilizar a função Cobb-Douglas encontrada em “Economic Growth” (D. Weil, p. 186), que se presta aos objetivos do texto. A função é a seguinte:

Y = AK^\alpha(hL)^{(1-\alpha)}

Onde:
Y = produto da economia
A = produtividade total dos fatores (PTF)
K = nível de capital físico da economia
h = quantidade de capital humano por trabalhador
L = número de trabalhadores
0 < α < 1 é o coeficiente que representa cota da renda total que remunera o capital

Essa função de produção pode ser subdividida em duas partes: a parte que representa a PTF (representada por A) e a parte que representa o acúmulo dos fatores de produção (representada pelo restante do lado direito da equação). Isso quer dizer que uma economia pode crescer através de duas formas: melhorando a PTF ou acumulando fatores de produção.

Dado que 0 < α < 1, isso significa que o crescimento via acúmulo líquido de fatores de produção (trabalho, capital humano e capital físico) se torna cada vez mais difícil à medida que um país acumula fatores de produção. A importância relativa da PTF para o crescimento vai se tornando cada vez maior. Isso explica, por exemplo, o comportamento atípico da União Soviética, que cresceu abruptamente até os anos 50 mas declinou cada vez mais. Este crescimento ocorreu via acúmulo de capital físico, e quando a PTF se tornou cada vez mais importante para levar ao crescimento, a falha da economia soviética centralizadora foi explicitada: ela não tinha capacidade de melhorar a PTF (em certa medida, muitos dizem que este mesmo fenômeno está ocorrendo com a China nos dias atuais – leia sobre aqui).

Pois bem, mas o que é a PTF? Ela pode ser subdividida em duas categorias: (i) tecnologia; (ii) eficiência. A tecnologia é a restrição da natureza: ela representa o estado de conhecimento do ser humano sobre o quão bem nós temos capacidade para manipular os fatores de produção disponíveis para produzir bens e serviços. Tal como a produção de capital físico e humano, a produção de tecnologia requer que recursos sejam destinados a pesquisa e desenvolvimento (aliás, o Prêmio Nobel de 2018 concedido a Paul Romer foi graças às suas contribuições nessa área – ver aqui). A eficiência, por sua vez, representa a efetividade com a qual o ser humano consegue combinar tecnologia e fatores de produção para produzir bens e serviços.

Mas essas são as causas aproximadas, ou imediatas, do crescimento econômico. Tecnologia, eficiência e acúmulo de fatores explicam a renda de um país, mas então o que as explicam? Por que o nível de tecnologia, de eficiência e de fatores varia entre os países? É aqui que entra as causas fundamentais do crescimento. Economistas têm estudado avidamente tais causas, e iremos elencar algumas possíveis:

(i) As instituições. O comportamento governamental afeta o comportamento dos agentes privados. Por exemplo, fornecendo educação básica universal, o governo aumenta o nível de capital humano; fornecendo leis que garantam direitos de propriedade intelectual, o governo pode aumentar a criação de tecnologia. Por outro lado, se o governo é facilmente cooptado por grupos de interesse, esforço que seria utilizado para produzir bens e serviços para a população é utilizado para procurar extrair renda da sociedade, naquilo que é chamado de rent-seeking.

(ii) A desigualdade de renda. Maior desigualdade é bom para o acúmulo de capital físico mas ruim para o acúmulo de capital humano (por motivos que não cabem nesse – falamos sobre isso em outro texto). Ademais, países mais desiguais têm maiores conflitos políticos e maior pressão para redistribuição de renda.

(iii) A cultura. A cultura de um país condiciona o comportamento das pessoas. Há comportamentos que são mais propícios para o crescimento do que outros: por exemplo, abertura a novas ideias, ética do trabalho e tendência a parcimônia.

(iv) A geografia e o clima. Países ricos geram efeitos de spillover sobre seus vizinhos, e por isso a localização de um país pode ser importante para seu desenvolvimento. Quanto ao clima, há uma correlação evidente entre latitude e renda (quanto mais longe do Equador, maior a renda). Economistas procuram entender esta correlação, com explicações passando desde produtividade agrícola até doenças tropicais.

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Esse texto tentou explicar o básico do crescimento. Obviamente, não cobrimos tudo o que poderia ser coberto sobre o assunto. Para maiores referências, o leitor pode consultar as seguintes fontes:

  • David Weil – Economic Growth
  • Charles Jones – Introdução À Teoria Do Crescimento Econômico

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