Por que o investimento privado não reage?

Esse texto foi escrito em 2019. Portanto, antes da pandemia. Mas suas conclusões continuam válidas.

A economia segue engatinhando e o investimento privado simplesmente não reage (estamos em 13%-14% do PIB, o que é bastante miúdo).

Bem, uma das explicações tem a ver com a rentabilidade do capital, que nunca foi tão baixa nas últimas muitas décadas.

Se r for a rentabilidade do capital, então:

r = P/K

Onde P é a soma da renda real do capital obtida através de lucros, juros e aluguéis dentro da economia (o que é chamado nos dados do IBGE de “excedente operacional bruto” olhando-se o PIB pela ótica da renda) e K o estoque de capital do país (fábricas, imóveis, máquinas, etc). Também sabemos que P = pY, onde p é a participação dos lucros na renda nacional e Y o PIB. Substituindo:

r = p(Y/K)

Se v for a relação capital produto (K/Y), temos:

r = p/v

Basicamente a rentabilidade do capital expressa o quanto é lucrativo investir na economia real, e ela depende positivamente da participação dos lucros na renda nacional (p) e negativamente da relação capital/produto (v). Nós estamos num momento peculiar em que a participação dos lucros está no mínimo histórico depois de ter sido espremida pela crise; e a relação capital/produto, depois de 4 décadas de crescimento medíocre da PTF, também chegou no seu teto histórico.

Depois dessa breve explanação, vocês conseguiriam apontar três caminhos para reativar o investimento privado? Bem, vamos lá:

1) Aumentar bastante a participação dos lucros na renda, o que também implicaria em diminuir a participação dos salários. Em termos simples, fazer os salários reais crescerem abaixo da produtividade do trabalho. Não é o tipo mais popular de política.

2) Reduzir a relação capital/produto. Isso se faz aumentando o PIB mais do que o estoque de capital. Dado que o capital, como qualquer insumo, tem retornos decrescentes, teríamos que gerar crescimento por outra coisa que não seja o próprio acúmulo de capital. Reduzir a capacidade ociosa ajuda, mas ainda assim continuaríamos na mínima histórica pelas estimativas de hiato de produto atuais. O caminho definitivo seria aumentar a eficiência econômica, também chamada PTF, através de uma série de reformas de impacto microeconômico (tributária, comercial, ambiente de negócios, etc).

3) Aumentar a confiança. Apesar de estar na mínima histórica, a nossa rentabilidade do capital ainda está dentro do normal para um país em desenvolvimento, e razoavelmente acima da média dos países desenvolvidos. Fica a pergunta: por que as pessoas simplesmente deixam de investir ganhando mais no Brasil para investir ganhando menos em outro lugar, já que vivemos num regime de livre mobilidade de capitais? Será que elas não gostam de nós ou conspiram contra nós? Evidentemente não é o caso. Elas fazem isso porque existe uma percepção de risco quanto ao país, que é precificada pela brecha de rentabilidade que se considera aceitável obter no Brasil em relação a um país desenvolvido que absorve grande volume de poupança externa, como os EUA, Reino Unido, Austrália e outros. O principal ponto aqui é tornar os ambientes macroeconômico, político e institucional mais saudáveis, confiáveis e estáveis.

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