Alguns tópicos sobre comércio, crescimento econômico e União Europeia

1) As maiores barreiras ao comércio mundial são de natureza regulatória, e não tarifária.

Desde o período pós-guerra, as tarifas de importação das economias avançadas caíram continuamente (obrigado, OMC). Hoje, exceto em países absolutamente exóticos como o Brasil, as tarifas desempenham, na média, um papel pequeno na obstrução do comércio global. Via de regra, a média ponderada de tarifas aplicadas pela maioria dos países desenvolvidos não chega a 2%. Os participantes da UE aplicam 1,8% (média ponderada) aos países fora do bloco, por exemplo. Os entraves nos nossos dias estão muito mais relacionados às desconformidades regulatórias e aos riscos relacionados ao mercado de câmbio.

Diversos estudos (como este) já demonstraram que o comércio Canadá x EUA é muito menor do que seria esperado dada a proximidade entre os países. O fluxo de comércio entre as províncias canadenses é bem mais intenso do que entre elas e os estados americanos situados às mesmas distâncias destas províncias. Com um modelo de gravitação e um pouco de econometria, é possível calcular o “border cost” entre os dois países. Por algum motivo, a existência da fronteira entre Canadá e EUA representa um grande obstáculo ao comércio, a despeito da existência de um generoso acordo aduaneiro e da absoluta proximidade cultural.

O que os blocos econômicos como a UE fazem para amenizar este problema é unificar as diversas legislações sobre produtos entre os países, facilitando o comércio. Antes da UE, um país pequeno como a Estônia tinha suas oportunidades de comércio severamente limitadas. Quais países estariam dispostos a atender os padrões estonianos? Como os estonianos poderiam adequar os próprios padrões para se encaixar na legislação de outros países? Qual país exatamente? Alemanha? Rússia? EUA? China?

Depois da UE, a Estônia não tem mais este problema. Sua produção segue as normas da UE, que é um grande player no comércio internacional. Uma série de países que não estariam dispostos a se adequar aos padrões da legislação estoniana hoje já se adequam aos padrões europeus. Os custos de conformidade entre as legislações despencam, e as oportunidades de comércio crescem, seja o comércio entre os países do bloco como com o resto do mundo.

2) O comércio internacional gera ganhos de bem-estar e de renda.

Aprendemos nos livros de microeconomia que as barreiras ao comércio criam peso-morto e ineficiência. Mas além disso, há outra perda ainda mais preocupante: a das economias de escala. Mesmo o Brasil – um país populoso e que está entre as dez maiores economias do mundo – representa um pedaço muito pequeno da economia global (2,5%). Para que possamos produzir qualquer coisa em escala relevante a nível internacional, nos beneficiando das economias de escala, dependemos fortemente do mercado de exportação. Dado a diferença entre o que um país exporta (X) e importa (M) equivale à diferença entre o que ele poupa (S) e investe (I), ou seja, X-M = S-I, fica claro que a única forma de aumentar as exportações sem reduzir o consumo das famílias (aumentar S) ou o investimento das empresas (diminuir I) é aumentando as importações. Resumidamente, não existe país que exporte muito e importe pouco ou vice versa, e neste caso não há exceção que confirme a regra.

Blocos como a UE, por aumentarem as possibilidades de comércio (ponto anterior), permitem que seus membros se especializem mais em determinadas atividades, gerando ganhos de renda e bem-estar através das economias de escala.

3) O comércio internacional beneficia a inovação, o desenvolvimento tecnológico e o crescimento econômico.

A inovação é um custo fixo, ou seja, uma vez que o projeto inovador está pronto, ele pode ser utilizado a custo zero infinitas vezes pela empresa inovadora. Disto podemos intuir que o custo médio da inovação cai com a escala de produção. Por isso, mercados maiores comportam mais investimento em pesquisa e desenvolvimento, já que neles há maior possibilidade de se apropriar, pelo lado do produtor, dos benefícios que a inovação gera.

Exemplo simples e exagerado:

Imagine se a Apple fosse uma empresa estoniana que atendesse exclusivamente ao mercado da Estônia. O enorme custo de desenvolvimento de um novo aparelho, dividido pelo número de vendas esperadas no país-mãe, tornaria este empreendimento totalmente inviável. Só vale a pena bancar os custos de P&D em um setor desta complexidade caso ele atenda a um grande mercado consumidor; e é isso que o comércio internacional proporciona, especialmente para os países menores, como a Estônia. Nós temos boas razões para crer que blocos como a UE, por aumentarem o fluxo de comércio dos países membros (ponto 1) e gerarem maior especialização (ponto 2), sejam um grande estimulante do crescimento econômico.

De fato, existem trabalhos estimando o impacto do bloco o crescimento dos países membros. Este artigo conseguiu identificar, usando grupos de controle sintéticos, um acréscimo de 10% no PIB per capita dos países que ingressaram na UE apenas nos 10 primeiros anos.

4) O Brexit tem tudo para ser danoso à economia britânica.

Alguns chegam ao absurdo de dizer que o Brexit representa uma “chance” para os britânicos praticarem “livre-comércio de verdade” com o mundo. Essa mentalidade revela profundo desconhecimento de como o comércio internacional funciona nos dias de hoje. Como dissemos, o problema do nosso tempo é desconformidade regulatória e não tarifário. As tarifas aplicadas pelo bloco são pequenas, e zerá-las não fará tanta diferença. Por outro lado, perder o guarda-chuva regulatório da UE pode ser uma dor de cabeça e tanto para os negócios britânicos com o exterior.

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