O déficit comercial das nossas manufaturas NÃO É um problema

Quem nunca assistiu Ciro Gomes reclamando do nosso “buraco na conta de manufaturados”? O buraco que ele se refere é o déficit nas transações envolvendo bens manufaturados, que corresponde à diferença entre a manufatura que a gente vende e compra do estrangeiro. Segundo o ex-candidato à presidência isso seria um problema para o Brasil porque afetaria nossa “condição de pagar” pelo que importamos.

Bem, como regra geral isso é falso. Países ricos como Canadá, Austrália e Nova Zelândia têm um déficit na conta de manufaturados historicamente maior que o Brasil, e não parece ser nenhum problema para eles. Na verdade isto é apenas consequência da abundância de recursos naturais nestes países.

Vamos ver o caso oposto: pense na Coreia, um país pequeno em dimensões, pobre em recursos naturais e extremamente populoso. Na medida em que esse país acumula capital físico e humano, em quais atividades pode se especializar no comércio exterior? Certamente não em atividades primárias, mesmo que queira. O motivo é óbvio: existe uma limitação física evidente. A produção de commodities não cresce linearmente em função da quantidade de máquinas utilizadas na agricultura e na mineração, por exemplo; o que indica que, ao investir nestes setores, logo eles estarão saturados de capital e ainda haverá muita mão-de-obra adicional para ser empregada a salários competitivos em outros lugares.

A consequência disso, dentro do mercado, será investimentos migrando dos setores saturados de capital, com baixos retornos (neste exemplo, commodities), para aproveitar a mão-de-obra competitiva em outras atividades tradables; e a única alternativa que resta são as atividades industriais e manufatureiras. A Coreia tem um enorme superávit na conta de manufaturados porque essa é a única coisa que eles poderiam se especializar no comércio exterior.

Países abundantes em recursos naturais, como a Austrália, são o caso oposto. Nestes países, o capital físico e humano pode frequentemente ser empregado de maneira mais eficiente nos setores primários do que nos demais, porque os recursos estão amplamente disponíveis. Se a Austrália tentasse imitar a Coreia, não teria tanta escala e nem os mesmos (baixos) custos de transporte para integrar as cadeias internas de produção que existem em país pequeno e populoso. Acabariam usando mal na indústria o capital e mão-de-obra que poderiam ser melhor empregados na mineração, e o país ficaria mais pobre.

Portanto, a Coreia se beneficia ao trocar com o mundo o que tem potencial pra fazer melhor, e a Austrália também. No final das contas, cada país tem superávit comercial no segmento que faz melhor e déficit no que faz pior. Estes são os benefícios do comércio: especialização.

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