Desigualdade e crescimento econômico

O impacto da desigualdade no crescimento já é debatido na economia mainstream há décadas, e ironicamente a maioria dos liberais que mandam a esquerda estudar economia em geral passam longe dos textos econômicos também ou acabam se isolando na escola austríaca. É inusitado como boa parte dos liberais de direita dão tanto valor para a opinião de economistas, mas quando estes falam sobre como é necessário combater a desigualdade brasileira, são simplesmente ignorados, quando não criticados pelo senso comum.

É necessário reconhecer que a busca pela redução da pobreza se dá pela soma de dois fatores: o aumento da renda per capta e também a redução da desigualdade. Se reduzirmos a desigualdade mas nossa renda cair, a renda dos 20% mais pobres pode se deteriorar. Se a desigualdade aumenta e a renda também aumenta, o mesmo pode ocorrer. É por isso que defendemos a queda na pobreza tanto através do crescimento quanto pela redução de desigualdade.

Tentando jogar uma luz nessa questão para aqueles que querem ir além da escola austríaca e tem dúvidas honestas, busquei alguns artigos acadêmicos para tentar responder a pergunta: Afinal, a distribuição de renda impacta no crescimento econômico?

A evidência mais atual sugere que sim. Existe uma relação inversa entre a parcela da renda acumulada para os ricos (20% maiores) e o crescimento econômico. Se a participação nos 20% superiores aumentar 1 ponto percentual, o crescimento do PIB será na verdade 0,08 ponto percentual mais baixo nos cinco anos seguintes, sugerindo que os benefícios não escoam para o resto da sociedade (trickle down). Em vez disso, um aumento semelhante na parcela de renda dos 20% inferiores (os pobres) está associado a um crescimento maior em 0,38 ponto percentual. Essa relação positiva entre as ações de renda disponível e o crescimento mais alto continua sendo mantida no segundo e terceiro quintis (classe média). Veja mais sobre aqui.

Isso vai ao encontro de outro artigo em que foi verificado que uma menor desigualdade líquida parece impulsionar um crescimento mais rápido e durável e também que o efeito de uma menor desigualdade é geralmente pró-crescimento (excetuando casos extremos). Veja mais sobre aqui.

Outros trabalhos sugerem que a desigualdade pode ser prejudicial ao crescimento porque priva os pobres da capacidade de permanecer saudáveis e acumular capital humano, e isso é especialmente verdadeiro em uma época em que o capital humano se tornou mais importante para o crescimento sustentável do que o capital físico. Isso fica claro no caso brasileiro, pois crianças pobres acabam em escolas de qualidade inferior e são menos capazes de seguir para a faculdade. E focar no ensino público de base é uma maneira excelente (ainda que de longo prazo) de se reduzir a desigualdade. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Na mesma linha, um estudo constata que países com níveis mais altos de desigualdade de renda tendem a ter níveis mais baixos de mobilidade entre gerações, com os ganhos dos pais sendo o determinante mais importante dos ganhos futuros dos seus filhos. Veja mais aqui.

Desigualdade excessiva também gera instabilidade política e econômica que reduz o investimento. Veja mais aqui.

Os países que experimentaram as quedas mais acentuadas no crescimento após 1975 foram aqueles com sociedades divididas (medidas por indicadores de desigualdade, fragmentação étnica e similares) e com instituições fracas em gestão de conflitos (representadas por indicadores da qualidade das instituições governamentais, regra de direitos democráticos e redes de segurança social). Nós somos péssimos em ambos. Veja mais aqui.

Além de afetar os fatores de crescimento diretamente, a desigualdade pode também resultar em más escolhas de políticas públicas. Por exemplo, pode levar a uma reação contra a liberalização econômica que promove o crescimento e impulsionar pressões protecionistas contra a globalização e reformas orientadas para o mercado. Veja mais aqui.

Nessa mesma linha vale citar o excelente livro do Marcos Mendes, “Por que o Brasil Cresce Pouco?”, onde ele argumenta que a desigualdade excessiva leva ao aumento do rent-seeking (a busca de vantagens pelas empresas junto ao governo) porque a desigualdade excessiva cria em uma sociedade democrática a pressão por redistribuição, já que a renda do eleitor típico costuma ser muito menor do que a renda média do país; em contrapartida, o corporativismo aliado aos políticos (assim como os próprios políticos) busca se proteger, gerando transferências dos mais pobres para os mais ricos que mitiga a distribuição de renda para os mais pobres. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Finalmente, a desigualdade de renda afeta o ritmo em que o crescimento permite a redução da pobreza. O autor inclusive cita o Brasil e o fato de nos anos 80 o número de pessoas na pobreza não ter mudado, o que não ocorreria caso a desigualdade se mantivesse inalterada. Os deslocamentos distributivos que prejudicam os pobres compensaram completamente os ganhos do crescimento. Veja mais aqui.

É importante ressaltar que a relação entre desigualdade e crescimento não é linear, como demonstra o modelo teórico de Benhabib (2003), no qual o aumento da desigualdade em níveis baixos fornece incentivos para aumentar o crescimento, enquanto os aumentos que ultrapassam certo limite incentivam a busca por rent-seeking e levam a um menor crescimento. Veja mais aqui.

Isso é confirmado quando observamos que países mais ricos são em geral menos economicamente desiguais, enquanto países pobres e de renda média tendem a ser muito desiguais em média, o que sugere que para um país ter um crescimento econômico de longo prazo e escapar da renda média, ele vai ter que lidar, eventualmente, com a questão da desigualdade econômica. Veja mais aqui.

Por fim, podemos observar que a grande maioria dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Dinamarca, França, Alemanha, Japão, Holanda, Nova Zelândia, Espanha, Portugal, Suécia, Reino Unido, Noruega, Suíça, Finlândia, Itália, Islândia, Israel, Bélgica… todos são menos desiguais do que o Brasil.

Podemos pegar também países que em poucos anos entrarão no clube de países desenvolvidos como Lituânia, Grécia, Estônia, Republica Tcheca e Polônia; todos com no mínimo o dobro da renda per capta brasileira e todos menos desiguais que o Brasil.

Mas quem tá certo é o Brasil não é mesmo? Vamos continuar a nos espelhar na América do Sul, afinal tudo por aqui dá muito certo…

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