Brasil: lugar onde a heterodoxia quer uma intervenção econômica padrão China e um estado de bem-estar padrão Escandinávia

O Brasil é o lugar onde a heterodoxia quer uma intervenção econômica padrão China e um estado de bem-estar padrão Escandinávia. Porém uma coisa não pode coexistir com a outra. Vamos tentar entender o porquê.

Países do leste e sudeste asiático conseguiram/conseguem ganhar produtividade na força bruta devido à alta taxa de acumulação de capital. Muita poupança, muito investimento, educação rígida e focada em áreas ligadas ao mercado de trabalho (exatas, ciências da natureza, linguagem, etc).

Numa situação dessas, é bem possível crescer, durante um bom tempo, sem liberdade econômica. Mas como o estoque de capital presente (fábricas, pontes, portos, máquinas) se deprecia e precisa ser reparado pra continuar funcionando – o que demanda um volume cada vez maior de renda para isto – fica óbvia a impossibilidade de se acumular capital pra sempre na mesma velocidade. Portanto, é de se esperar que um modelo de desenvolvimento que aposte todas as suas fichas no acúmulo de capital, sem se importar muito com a eficiência econômica, tenda a se esgotar em algum momento. Isso é o que conhecemos na teoria do desenvolvimento como armadilha da renda média.

A armadilha é a seguinte: não adianta construir fábricas e pontes pra sempre porque tudo isso custa renda presente para se manter funcionando. Se queremos continuar evoluindo no longo prazo, precisamos passar a fazer continuamente o melhor uso das fábricas e pontes existentes. Bem, até onde sabemos, isso só é possível dentro de uma economia de mercado, aberta e concorrencial. O exemplo que melhor ilustra essa conclusão é a derrota da URSS no final do século passado. Eles tinham pontes, fábricas, rodovias, máquinas; mas eram incapazes de fazer o melhor uso dos recursos disponíveis, ou seja, eram uma economia com um enorme estoque de capital, mas ineficiente. Não por outro motivo, os países que iniciaram o desenvolvimento pela via estatal e conseguiram superar a armadilha foram os que transitaram no momento certo de um modelo para o outro. A Coreia do Sul da década de 90 é totalmente diferente da Coreia do Sul da década de 70 em termos de liberdade econômica, por exemplo. Daí intuímos que mesmo o modelo asiático, se aplicado com sucesso, tem prazo de validade.

Como falamos acima, esse empurrão inicial só pode funcionar (de modo a compensar a ineficiência da alocação centralizada/dirigida) com uma grande taxa de investimento, o que por consequência exige uma alta taxa de poupança ou um enorme endividadamente externo. Endividamento foi nossa opção de 30 a 80, mas não é mais. Isso significa que agora teremos que contar majoritariamente com a poupança doméstica. Aí que surge a contradição: países com generosos mecanismos de proteção social tendem a poupar pouco. Se tem previdência pública, poupamos menos. Se tem saúde pública universal, poupamos menos. Se tem universidade pública universal, poupamos menos, e assim por diante.

Ou seja, mesmo que tenhamos condição de replicar o modelo do leste asiático (no caso de ainda termos margem para ganhar produtividade na força bruta, como eles inicialmente fizeram), teríamos justamente que desmantelar o estado de bem-estar social para fazer o brasileiro poupar tanto quanto um asiático. Só pra gente ter noção, a China poupa 50% do PIB. Nós? Entre 15%-20%, historicamente. Todo esse esforço insano de poupança e investimento seria indispensável, entretanto, durante um período limitado de tempo. Assim como todos os países que adotaram o dirigismo no início do desenvolvimento e conseguiram alcançar patamares elevados de renda (Tigres, Japão, Alemanha, Israel), em algum momento teríamos que transitar para um modelo majoritariamente de mercado, em que a eficiência econômica, e não a força bruta, seja o carro-chefe. O pacote gigantesco de privatizações chinesas dos últimos 5 anos, além da mudança de gestão anunciada recentemente (SOE), indica que até eles já iniciaram a transição.

Conclusão 1: o nível de poupança é o pilar do modelo asiático. Portanto, a única forma coerente de se defender a adoção de algo parecido no Brasil é defendendo também a parte que implica em enormes custos sociais, em especial, o bastante reduzido estado de bem-estar.

Conclusão 2: o modelo não funciona pra sempre. Quando se atinge a renda média, o grande desafio passa a ser a eficiência e não o simples acúmulo de capital. Quem defende o modelo asiático precisa explicar bem em que fase do desenvolvimento nós estamos e o quanto teremos a ganhar com essa estratégia.

Conclusão 3: A heterodoxia brasileira – que geralmente se identifica como de esquerda – aparentemente prefere não defender as partes “desagradáveis” do modelo asiático por questões ideológicas. Inventamos em terra brasilis o ideal de estado que intervém economicamente tanto quanto o chinês e te dá tantos serviços públicos quando o sueco. Isso nunca vai dar certo.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não ficará público