As causas do crescimento não são o que você pensa

A pauta de exportação da Austrália é mais simples que a do Cazaquistão e sua manufatura pesa menos no PIB que a do Quênia. A Coreia do Sul, por outro lado, tem uma pauta de exportação altamente complexa e uma indústria manufatureira bastante expressiva. Ambos – Austrália e Coreia – são ricos. O que eles têm em comum?

Coreia e Austrália têm um ambiente de negócios amigável à economia privada, com boas garantias de propriedade, contratos, facilidade para abrir e fechar empresa, obtenção de alvarás, etc. Ambos têm uma população bem educada e resultados satisfatórios nos exames internacionais. Ambos pouparam e investiram o suficiente ao longo de sua história para acumular um grande estoque de capital por trabalhador. E é essencialmente isso mesmo.

A economia mainstream consegue relacionar como causas do crescimento econômico basicamente 3 fatores com relativa segurança:

1) Capital Físico

Pontes, fábricas, portos, máquinas, etc. Todos os bens físicos usados para produzir outros bens ou serviços. Um país acumula capital físico investindo, e para isso ele precisa poupar e/ou receber investimento externo, sendo este último limitado pela restrição externa. Todos os países que acumulam/acumularam capital físico em alta velocidade (Japão, China, Tigres Asiáticos) têm uma alta taxa de poupança, que por sua vez sustentou a alta taxa de investimento.

2) Capital Humano

Basicamente isso é sinônimo de educação. Nós sabemos que uma população mais bem educada é muito mais produtiva. Um país acumula capital humano melhorando seus indicadores educacionais, especialmente os do ensino básico, que têm a maior taxa de retorno e possíveis externalidades associadas.

3) Institucionalidade

Este elemento é determinado pelo arranjo institucional do país, que o permite usar melhor ou pior os fatores anteriormente mencionados. Uma institucionalidade pró-eficiência, com moeda estável, saúde fiscal, boas garantias de propriedade/contratos, regulação adequada, etc, permite que um país use eficientemente os fatores de produção disponíveis (físicos e humanos), e vice-versa. Um bom ambiente de negócios é extremamente importante.

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O Brasil é um país que vai mal nos três pontos. Temos um ambiente de negócios muito ruim, uma população pouco educada, resultados terríveis no PISA, uma taxa de poupança/investimento muito baixa para os parâmetros internacionais, e nada disso parece estar melhorando muito nas últimas décadas (exceto a escolaridade, que melhorou, partindo de níveis terríveis). Não é de estranhar que o nosso resultado em termos de crescimento econômico não seja satisfatório, independentemente do que nós produzimos ou deixamos de produzir.

Quando os economistas rodam as regressões usando estes indicadores (ou relacionados) em painel para centenas de países durante dezenas de anos, fica muito difícil atribuir grande papel explicativo para a distribuição setorial. O que nós vemos na prática é que um país que vai bem nos três pontos que mencionamos será produtivo, e consequentemente rico, produzindo microchip ou carvão (Coreia do Sul e Austrália, respectivamente). Esta é uma versão das causas do crescimento que destoa um pouco da narrativa que você ouviu a vida inteira. Talvez a maior razão do nosso atraso seja termos escolhido travar o debate sobre políticas públicas na base do misticismo.

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