A importância de Mises na economia

Muitas pessoas na internet idolatram Mises, principalmente graças à exitosa campanha de doutrinação feita, aqui no Brasil, pelo site Instituto Mises Brasil e suas ramificações. Muitos chegam a idolatrar esse economista a ponto de considerar que absolutamente tudo que acontece no mundo foi explicado por ele. Assim como os marxistas fanáticos idolatram Marx e dizem que a explicação de tudo está em O Capital, os austríacos fanáticos creem que a explicação de tudo está em Ação Humana. Um exemplo disso pode ser visto no tweet abaixo, feito por Hélio Beltrão, o fundador do site Instituto Mises Brasil.

Mas, idolatrias à parte, qual exatamente é a real importância de Ludwig von Mises pra economia? Quais foram as contribuições perenes desse economista? Suas contribuições o tornam um dos maiores economistas de todos os tempos? Ou será que ele é completamente irrelevante pra economia atual?

Não é apenas em grau de fanatismo dos seus seguidores que Marx e Mises se equiparam. Ambos fizeram contribuições importantes para a economia em suas respectivas épocas, levantando questões relevantes a esse campo do conhecimento e ajudando, dessa forma, a fazer a ciência econômica avançar. Mas a maioria dos escritos de ambos ficou datada, e por isso suas contribuições perenes são limitadas. Por isso, como diz o ditado, nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno: Marx e Mises são economistas importantes para a história do pensamento econômico, mas não tão importantes assim. Eu, particularmente, colocaria ambos no meu top 200 de maiores economistas de todos os tempos, mas não no meu top 100.

Nesse texto, elencarei aquilo que considero ser as três principais contribuições de Mises pra economia. Suas três principais contribuições, ao meu ver, são: (i) ele foi mentor de vários economistas muito importantes para a história da economia; (ii) ele contribuiu para o debate acerca do cálculo econômico no socialismo; (iii) ele teve insights importantes em metodologia econômica. Abaixo, falo um pouco mais sobre cada um desses três pontos.

O mentor Mises

A imagem abaixo da árvore genealógica dos ganhadores do Nobel, do paper “Rise of the Kniesians: The professor-student network of Nobel laureates in economics”, de Richard Tol, mostra a importância histórica de Ludwig von Mises para a ciência econômica.

Mises foi mentor de três economistas super influentes: (i) Friedrich von Hayek, que participou ativamente nos debates econômicos da Inglaterra nos anos 30, sendo por um tempo talvez o principal nome da London School of Economics nesse período — um período que juntou na LSE nomes tão importantes para a formação da ciência econômica como Lionel Robbins, Abba Lerner, Nicholas Kaldor e John Hicks; (ii) Gottfried Haberler, que foi um dos principais professores de economia de Harvard da primeira metade do séc. XX e fez contribuições valiosíssimas para a teoria do comércio internacional; e (iii) Fritz Machlup, que participou ativamente dos debates econômicos pós-Segunda Guerra nos EUA, principalmente debates sobre metodologia.

Ou seja, Mises tem uma profunda importância como mentor e, dessa forma, teve seu quinhão de contribuição para a formação do pensamento econômico moderno.

Mises e o cálculo econômico no socialismo

Von Mises iniciou um debate que durou décadas entre os economistas e que, de certa forma, se estende até hoje. Em seu paper publicado em 1920, “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth”, ele argumentou, grosso modo, que, dado que em uma economia planificada grande parte dos fatores de produção não são precificados, então é impossível se ter uma produção racional nessa economia, uma vez que a produção não estará em sintonia com os fins desejados pelos membros da sociedade.

Várias réplicas foram feitas ao argumento de Mises. As principais vieram de Abba Lerner e Oskar Lange. Em um artigo publicado em duas partes, uma em 1936 e outra em 1937, chamado “On the Economic Theory of Socialism”, Lange argumentou que o cálculo econômico seria sim possível no socialismo desde que as firmas atuassem mediante tentativa e erro, com preços delimitados artificialmente pela autoridade central.

A principal tréplica ao argumento de Lerner-Lange foi feita por Hayek, em um argumento que foi sintetizado mais brilhantemente no seu famoso artigo de 1945 intitulado “The Use of Knowledge in the Society”. Nele, Hayek diz que a questão principal que envolve o problema do cálculo é a questão do conhecimento. Como na sociedade o conhecimento acerca do melhor uso dos fatores de produção é disperso, então apenas o sistema de preços é capaz de transmitir o conhecimento de um agente específico para todos os demais.

A partir da década de 40, a maioria dos economistas tinham considerado que aqueles que argumentaram em favor da possibilidade de uma economia planificada venceram o debate, dado o grande crescimento que as economias socialistas, sobretudo a União Soviética, estavam presenciando. Mas com a derrocada dos países socialistas no fim da década de 80 e início da década de 90, o pêndulo se moveu em favor dos austríacos Mises e Hayek.

Mas o debate continua até hoje. Para um resumo desse debate, leia o verbete da Wikipédia em inglês sobre o assunto. Se quiser se aprofundar mais no tema, leia a tese do professor Fabio Barbieri disponível aqui.

O fato é que Mises foi uma das principais figuras em um dos principais debates dentro da economia no século XX.

As contribuições de Mises para a metodologia econômica

Mises fez uma contribuição valiosa para a metodologia da economia, uma contribuição que muitas vezes é negligenciada pelo mainstream econômico. Dado que a economia é uma ciência teleológica, isto é, uma ciência cujo objeto de estudo possui desejos e age em busca de satisfazer esses desejos, então partindo somente da introspecção a respeito do conceito de ação você pode derivar outros conceitos fundamentais da ciência econômica, tais como os conceitos de valor, custo de oportunidade, escassez, demanda e assim por diante.

Vários economistas perceberam isso e avançaram o conhecimento econômico a partir da introspecção, tais como Carl Menger, John Cairnes, John Stuart Mill, Lionel Robbins e outros. Mas creio que quem melhor tenha apreciado a importância da introspecção pra economia foi Mises.

Acontece que esses conceitos derivados da introspecção geram apenas um conhecimento sobre relações abstratas, não dizendo muita coisa sobre o mundo real. Eles delimitam condições bem gerais nas quais as relações econômicas se desenrolam. A praxeologia poderia ser considerada, então, uma “meta-economia”. Tendo essas condições gerais em mãos, a economia seria praticamente anything goes.

O máximo que a praxeologia pode fazer é dar ao pesquisador econômico intuições ou probabilidades subjetivas/bayesianas acerca do objeto pesquisado. Abaixo esclareço melhor o que quero dizer.

Por exemplo: a partir da praxeologia, você pode derivar a Lei da Demanda, que diz que a quantidade demandada pelo bem “a” vai cair caso o seu preço aumente. Acontece que, uma vez que esse bem “a” é apenas um ente abstrato, ele nada diz sobre o mundo real. Você não pode partir da Lei da Demanda e dizer, por exemplo, que a demanda por chocolate vai cair caso o seu preço aumente. Isso porque você não sabe com certeza se o bem “chocolate” possui uma correspondência unívoca com o bem “a” abstrato. Podem existir várias situações em que essa correspondência não exista.

Por exemplo, o chocolate pode ser um bem de Giffen. Os bens de Giffen não refutam a Lei da Demanda, eles apenas mostram que nem sempre aquilo que a gente considera como um bem possui correspondência com o bem “a” abstrato. Não refutam porque existem várias formas de adequar os bens de Giffen à Lei da Demanda. Uma delas foi feita pelo professor Peñaloza, ao analisar os bens de Giffen considerando o fator temporal, fazendo com que, dessa forma, tais bens ainda obedeçam a Lei da Demanda. Uma outra forma pela qual poderíamos adequar os bens de Giffen à Lei da Demanda é considerar que, quando o bem de Giffen é um bem alimentício, o indivíduo considera como bem não os alimentos, mas sim as calorias consumidas — os alimentos seriam apenas componentes desse bem maior.

Ou talvez o chocolate possa ser um bem de Veblen. Novamente, bens de Veblen não refutam a Lei da Demanda, mas mostram que nem sempre aquilo que nós consideramos como um bem possui correspondência com o bem “a” abstrato. Para adequar os bens de Veben à Lei da Demanda, poderíamos considerar que o mesmo bem com preços diferentes são, na verdade, bens distintos, pois sinalizam coisas diferentes aos indivíduos: se for barato, sinaliza que é um bem normal, se for caro, sinaliza que é um bem de luxo.

O ponto é: a introspecção, apesar de ser necessária pra se obter conhecimento acerca da economia, não é suficiente. É necessário olhar pro mundo, coletar dados, e analisar se esses dados condizem com as teorias abstratas que você criou.

Estas teorias abstratas devem respeitar os postulados da praxeologia, mas como tais postulados são extremamente gerais, os modelos teóricos podem ser praticamente infindáveis. Novamente, o mundo teórico da economia é anything goes.

Você pode, por exemplo, imaginar um mundo em que a educação contribui na produtividade só até apenas determinado ponto, depois não mais. Pra ver se esse é o caso, você precisa coletar dados e analisá-los. É aqui que entra a importância da econometria: como os modelos teóricos são infindáveis, a descrição do mundo real requer análise de dados observacionais pra ver quais desses modelos melhor descrevem o mundo.

O que a praxeologia dá ao pesquisador econômico é um prior, no sentido bayesiano da palavra, de que determinada teoria está correta em um determinado contexto específico. Por exemplo, se você está analisando o mercado de chocolates, baseado na praxeologia, a priori você espera que a curva de demanda traga uma relação inversa entre preço e quantidade. Isto é, a praxeologia lhe dá motivos fortes para esperar com alto grau de probabilidade essa relação. Portanto, se, mediante os dados, você observa que a curva de demanda desse mercado na verdade gera uma relação direta entre preço e quantidade (e não uma relação inversa), então, baseado na praxeologia, você deve ficar muito cético com esse resultado. Você deve esperar que tenha ocorrido algum erro de especificação desse modelo, ou que a amostra seja pequena demais, ou algum outro problema econométrico. Isso porque é muito mais provável que o erro esteja no seu modelo do que que o bem seja, por exemplo, um bem de Giffen.

Importante: a econometria não testa os postulados válidos da praxeologia, mas, pelo contrário, aceita eles de antemão, pois a praxeologia está no campo da meta-economia.

Por exemplo, quando se usa a econometria pra testar se o aumento do salário mínimo causou desemprego em certa região, você não está testando empiricamente nenhum postulado da praxeologia, uma vez que esta não diz que a relação entre salário mínimo e desemprego é inversa em absolutamente todos os casos. No caso em que a estrutura de mercado é um monopsônio, por exemplo, tal relação não se verifica (mesmo com ceteris paribus).

Como a praxeologia faz relações entre entes abstratos, e você não sabe de antemão se a relação entre salário mínimo e desemprego possui uma correspondência unívoca com esses entes abstratos, então pode ser que, tais como os bens de Giffen, não seja o caso.

E como a econometria usa como base a estatística, e a estatística parte da probabilidade, então o conhecimento derivado da econometria é necessariamente incerto. Dado isso, é possível sim você fazer previsões sobre o comportamento humano futuro, mas previsões probabilísticas. A pessoa que diz que não é possível fazer tais previsões parece que não aprecia exatamente as implicações da sua fala. Na prática, o que ela está falando é que é impossível saber se o preço do chiclete vai estar 10 centavos ou um milhão de reais amanhã.

Obviamente, você nunca pode saber com 100% de certeza qual será o preço do chiclete amanhã. Só o que você tem são probabilidades. É justamente por isso que se usa, nos trabalhos de econometria, níveis de confiança, por exemplo.

No fim das contas, a microeconomia teórica compatibiliza a praxeologia com a metodologia mainstream: ela diz praticamente a mesma coisa que a praxeologia, só que com outra linguagem. Mas, diferente dos austríacos, os economistas mainstream sabem que aquelas construções teóricas são apenas abstrações que não dizem muito sobre o mundo real.

Por isso, é necessário parar com essa pretensão de achar que você vai descobrir fatos relevantes sobre o mundo sentado no seu sofá e partindo apenas da introspecção. A introspecção, na economia, vai te dar apenas relações gerais. Se você quiser saber como o mundo funciona de fato, você precisa botar a mão na massa: coletar dados e rodar regressões!

(Veja aqui um debate sobre metodologia econômica entre o autor desse texto, Lucas Favaro, e o austríaco Henrido).

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